sábado, 30 de dezembro de 2017

Talvez o último desejo - Rachel de Queiroz

Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.

Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!


Texto extraído do livro: Um alpendre, uma rede, um açude - 100 crônicas escolhidas. Rachel de Queiroz. Editora Siciliano. São Paulo. 1993 p. 101-103.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Desde que você partiu o tempo nunca mais se transformou.
Não houve mais tantas risadas nas festas
e nem fizeram mais a fogueira de São João.

Desde que você partiu o tempo nunca mais se transformou.
O que aconteceu foi ouvir um monte de promessas
E nascer uma nuvem no meu coração.

Depois que você partiu o tempo nunca mais se transformou.
Fez-se o mesmo e tudo se acabou. E nada se cumpriu.
E a espera é te amar sem te ter — você não volta —
E a saudade é tudo ser igual.

PS: poema que escrevi há alguns anos em homenagem a minha amada avó Irinéa que hoje completaria mais um ano de vida.

De Carne Somos



CARLOS PRESMAN 

Garçom, traga o bife com carne viu?!

            É preciso humanizar a medicina! Perfeito, lógica pura. Isto se escuta e se lê nos ambientes que se preocupam com a saúde das pessoas. Se pensarmos um pouco é tão absurdo, mas falar do óbvio deve ter suas razões.
            Porque humanizar a medicina? Antes era humana e hoje não? Se não é humana, que médicos somos, veterinários? Se não é humana, quem são os pacientes, animais?
            A dificuldade encontra-se nos médicos, há somente um meio de entender o que quer o paciente: a fala. A linguagem nos distingue fato que nos converte na única espécie que reflete sobre o que o outro está pensando. Então, cada palavra padece de polissemia ou vários significados.
            Voltemos ao bife. Para uns será um suculento pedaço de carne, para outros um tapa e para uns pouquinhos bi-fe define a aqueles que têm duas religiões. Apenas carne. Imagine agora as inúmeras palavras que compõem o ato médico. É preciso humanizar a medicina!
            A anamnese o como interrogar, tornou-se o calcanhar de Aquiles dos médicos. Não é difícil perguntar, não é difícil escutar. Cada paciente tem uma linguagem e cada médico também. O paciente se transforma então, numa pessoa única que não aparece em nenhum livro por mais espesso e atualizado que seja. Porém, não podemos pedir uma tomografia computadorizada da preocupação, um eletroencefalograma da tristeza, um ecocardiograma da dor, uma análise do abandono. O paciente é sempre um “animal” doente, vivendo num humano mais doente ainda.             Aqui estamos médicos e pacientes, aprisionados em consultas que não passam de sete minutos, obrigados a realizar vinte estudos complementares por dia, a praticar dez cirurgias por semana. Não parece ser o mesmo? Fabricar uma série de salsichas, consertar uma pilha de sapatos, cortar uma quantidade de bifes, tratar vários pacientes. É preciso humanizar a medicina!
            Na maioria dos casos, a relação médico-paciente se rompe não por falta de conhecimentos científicos, nem por desajustes profissionais, mas por que ambos perdem a confiança. Viva a medicina alternativa! Lá se vão os pacientes que tratamos como animais. Por que será, não?
            Aqui estamos, médicos relutantes em perder a dignidade e pacientes necessitados de atenção. De um lado... "os grandes prestadores", clínicas e sanatórios! Do outro lado "os grandes financiadores”, os pré-pagos e planos sociais! Você e eu sabemos os que estão nos cobrando nesta briga. Além do mais, o que recebem muitos médicos e pacientes não dá nem para carne! 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

De repente você está a caminho de um encontro com o seu amor. Daí, uma mensagem chega.

"Tomei 25 comprimidos de morfina num momento de raiva. Ora por mim"

O ônibus para. A música para. Tudo para e o coração acelera. Meu Deus, e agora? O que eu posso fazer diante dessa situação?

Não posso dizer nada, posso ouvir, ou melhor, escutar.

Eu escuto. Ela já não é mais ela. É triste. Sinto mais um fim se aproximando...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Nosso último encontro foi ótimo, como sempre. 
R era um menino muito comunicativo, cheio se humor, sensível e muito especial. Dias antes eu havia dado uma entrevista para um jornal da Globo e então ele disse: - "eu te vi na televisão. Tira uma foto comigo porque você ficou famosa."
Eu sorri e tiramos uma selfie, selfie que depois viria compor a sua ficha e a representação de sua residência no mapa atrás da minha mesa na AHPAS. 

Nós conversávamos muito. Ele era um menino inteligente e curioso.
Ainda lembro de um dia em que conversávamos e ele parou a frase na metade pra dizer: "nossa, como você é linda". Sua mãe o repreendeu. Disse: "menino, não fala assim". E ele disse: "mãe, eu não menti". Aquilo virou piada e rimos a beça com as "cantadas" daquele menino.

Infelizmente hoje não poderemos mais rir juntos. Ele se foi. Com ele também foi um humor incrível, um filho amoroso, um garoto que sabia dizer o que sente, o que precisa, na hora exata: imediatamente. Quando a vontade surge.

Ontem quando estive no hospital para uma visita já não pudemos falar. Seus olhos não abriam mais, seu corpo já estava inerte. Conversei com sua mãe. Dei apoio, dei ouvido, falei dos limites e da sua isenção de culpa. Afinal, como suportar a dor de perder um filho e a culpa? Ela esgotou o seu limite. Fez o que pôde e o que não podia fazer. Era sua única extensão. Agora ela é metade. 

E eu, lembrança e saudade.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Universo: um verso. Um verso é a expressão mais bonita que há. Além do mais, um verso é um verso para nós mesmos com o qual se podem descobrir todas as nossas potencialidades e que nos fazem fundir com as estrelas; poder voltar a viver a realidade sob a expectativa de uma criança, onde tudo é possível com o pensamento – ter cabelo azul quando desejar, ser um elefante roxo ao sair pela porta e rir porque acabou de falar com uma fada! E tudo isso é verdade! Quem mente é o adulto, que não acredita nos versos, que não se emociona com a vida e que aspira ter o que somente caiba em sua mão!

quinta-feira, 6 de abril de 2017