quinta-feira, 6 de março de 2014

Literatura para quê?, de Antoine Compagnon


                Uma breve resenha de "Literatura para quê?"...
                Para responder à essa questão, Antoine Compagnon divide sua explanação em duas perguntas: "Por que e como falar de literatura francesa moderna e contemporânea no século XXI?" O autor inicia dizendo como falar de literatura. O que nos parece mais claro é uma bipartição na hora de tratar de literatura. Teríamos, de um lado, "a tradição teórica [que] considera a literatura como una e própria, presença imediata, valor eterno e universal; a tradição histórica [que] encara a obra como outro, na distância de seu tempo e de seu lugar". O autor faz uma observação interessante e nos diz que as cátedras de literatura francesa no Collège de France ora pendiam para um ramo, ora para outro.
                Compagnon segue sua conferência apoiado no aparato teórico como viés metodológico e oferece o contexto da produção literária através da história. Além disso, deixa claro que pretende estudar a literatura francesa do Renascimento ao século XX (de Montaigne a Proust). Após tratar da herança francesa dos estudos literários, o autor começa a explicitar o porquê de se estudar literatura. Inicia essa questão propondo algumas perguntas que são compartilhadas com o público. "Quais valores a literatura pode criar e transmitir ao mundo atual? Que lugar deve ser o seu no espaço público? Ela é útil para a vida? Por que defender sua presença na escola?" Nos parece muito interessante pensar todas essas questões, mas em especial a última. Também é importante dizer que essas são questões pensadas, sobretudo, após as Grandes Guerras.
                Mais adiante ele ainda diz: "Há realmente coisas que só a literatura pode nos oferecer? A literatura é indispensável, ou ela é insubstituível? Na tentativa de responder todas essas questões, Compagnon apresenta algumas explicações. Num primeiro momento trata da função e do valor da literatura como constituição do ser humano. Para isso apoia-se no conceito de mímesis, de Aristóteles. A literatura que instrui e deleita ao mesmo tempo. Em segundo lugar apresenta o "poder da literatura" que surge no "Século das Luzes" e refere-se a ela como um remédio, que dá autonomia e libertação ao leitor. Em todo caso, não deixa de lado o seu caráter deleitante. Sob essa ótica nota-se que existe uma forma política bastante marcada na literatura. O terceiro "poder" estaria relacionado à correção da linguagem que a literatura é capaz de proporcionar, seria a linguagem poética que ultrapassa as fronteiras da linguagem ordinária (os avanços na representação do homem no mundo). Por último, Compagnon nega o poder da literatura além do exercício dela mesma. O autor diz que a literatura seria a área do "fora do poder". "A literatura pode divertir, mas como um jogo perigoso, não um lazer anódino".
                Quando sua conferência vai chegando ao fim, Antoine Compagnon fala que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Em relação a essas formas de representação que rivalizam com a literatura o autor diz que “a literatura não é a única [que introduz a inteligência da imagem], mas é mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, e isso é suficiente para garantir seu valor perene”.
                Nos parece pertinente fazer um paralelo com Antonio Cândido no tocante a função humanizadora da literatura. A esse respeito o que ele diz é que
"o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição de saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (1995, p. 249)
                Em todo caso, embora haja convergência nesse aspecto, os autores divergem quanto ao poder emancipador da literatura. A esse respeito, Antoine Compagnon diz que "seu poder emancipador continua intacto, que nos conduzirá por vezes a querer derrubar os ídolos e a mudar o mundo, mas quase sempre nos tornará simplesmente mais sensíveis e mais sábios, em uma palavra, melhores”.
                Durante toda a aula Compagnon apresenta diversas questões, inclusive, sobre a validade e permanência do discurso literário. Além disso, apresenta comentários de extrema relevância para nós, futuros professores de literatura. A esse respeito não seria mais adequado falar de leitura literária ao invés de literatura? Nesse sentido, Leyla Perrone-Moisés, em Inútil Poesia, diz que a literatura como entendemos hoje não é ensinável, mas é possível que exista a leitura literária, e isso deve fundamentalmente existir através do aprendizado. Afinal, "se os professores negligenciarem a tarefa de mostrar aos alunos os caminhos da literatura, estes serão desertados, e a cultura como um todo ficará ainda mais empobrecida." (2000, p.350-351).
                Sem dúvida nenhuma, Literatura para quê, é um livro indispensável para aqueles que se interessam pelo literário e se preocupam com a literatura do século XXI. Nas páginas finais do livro, Antoine Compagnon continua a nos questionar: "Respondi às perguntas que coloquei há pouco? Literatura para quê? A literatura é insubstituível?". Em seguida, responde: "Ela sofre concorrência em todos os seus usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe convém e seus poderes continuam imensos; (...) O exercício jamais fechado da leitura continua por excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em devenir."