quinta-feira, 21 de março de 2013

O Retorno do Jovem Príncipe


              Alejandro Guillermo Roemmers nasceu na capital argentina, Buenos Aires, em 1958, e sua trajetória literária teve início ainda na infância. Este é o autor de "O Retorno do Jovem Príncipe". Devo aqui dizer que conheci este lindo livro através de uma querida amiga - Jana - que me presentiou pelo meu aniversário. Também devo dizer que foi um dos presentes mais surpreendentes e significantes. Afinal, ele atravessou um oceano inteiro pra me encontrar...
               Roemmers retoma a história do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry e o flagra novamente na Terra, mas desta vez em plena adolescência. Um viajante solitário na Patagônia, já em idade avançada, depara-se com o personagem desmaiado e continua sua viagem na companhia do novo amigo - que depois irá acordar e questionar muito! Num primeiro momento fica difícil reconhecê-lo, mas depois de algumas conversas é impossível não concluir que ele é aquele príncipe que voltou para uma nova visita em nosso planeta.  
                   Enquanto o tempo passa e a estrada não tem fim, os companheiros seguem um caminho da ingenuidade até o mais alto estágio das reflexões acerca da existência humana. Juntos, eles discutem sobre os terríveis confrontos bélicos que atingem a Terra, as crises de natureza econômica, a miséria e o excessivo materialismo perceptível no consumismo desenfreado. O Príncipe tenta compreender porque, diante de problemas cruciais, o Homem não busca outras trajetórias, pois sempre há uma escolha. E também procura entender a razão da Humanidade não se voltar para outra dimensão na busca de novas direções a seguir.
                  Como sabemos o autor teve inspiração no livro cultivado em sua infância, publicado no auge da Segunda Guerra Mundial, em 1943, para criar sua própria obra. Em sua narrativa encontramos um mesmo ar poético, um ponto de vista igualmente espiritualizado e humano sobre a vida, o Planeta e a moral essencial que rege a Humanidade. Roemmers consegue trazer de volta a personalidade aguda do protagonista eterno de "O Pequeno Príncipe" resultando numa narrativa que traz em si muito amor e fortes emoções que despontam do âmago do ser. Recomendo muitíssimo a leitura!!! 
                 
                 E como bem disse nosso querido escritor - também argentino - Jorge Luis Borges: "creio que uma forma de felicidade é a leitura."



sábado, 26 de janeiro de 2013

Em que sentido a fala do médico pode ser entendida como um ato de fala "curativo"?




            Observamos a existência de uma relação dialética entre pensamento e linguagem. Talvez não seja possível definir a precedência de um elemento sobre o outro. Neste sentido, o uso da língua deve estar em consonância com aquilo que se concebe acerca de uma dada prática social. No tocante ao objeto do texto, devemos esclarecer que entendemos a fala médica como uma interlocução de alta complexidade, ocorrida em situações específicas: os processos de tratamento médico de doentes. A própria definição que damos a tal processo pressupõe a existência de pelo menos dois elementos, o médico e o paciente. Portanto, há de se estabelecer entre ambos uma dialógica. Infelizmente, ainda predomina em hospitais, clínicas e consultorios uma visão marcada de esteriótipos bem delimitados - médico como detentor de saber em relação à saúde e pacientes como um simples objeto inerente à prática médica.
            A fala médica não pode deixar de ser entendida como uma prática geradora de consequências, indissociavelmente ligada às ações profissionais do médico. Nossa ponderação não defende a anulação do papel social do médico em prol do estabelecimento de relações pessoais. Entretanto, a atuação do profissional de medicina deve levar em conta o caráter humano que lhe é inerente, como a qualquer prática social. Destarte, o médico que buscasse compreender a fragilidade e emoção que envolve o paciente/família passaria a identificar-se com o Outro, quebrando a hierarquia médico-paciente; mais satisfatório seria o diálogo para ambos. O médico tomaria um posicionamento mais solidário e humanizador, dando uma chance à fala do paciente e seus familiares. Por outro lado, o paciente criaria mais confiança no médico - de modo a vê-lo como um aliado na luta contra a doença. O processo de tratamento decorrente de tal relação seria fundamentalmente uma construção coletiva.
             Analisando a questão da linguagem de um ponto de vista pragmático, entendemos que a enunciação do médico tem o poder de construir uma força "curativa" e transformadora. Pressupondo que uma fala tem seu sentido sempre reconstruído pelo interlocutor, abre-se espaço para uma vasta gama de interpretações, sempre baseadas no repertório cultural desse receptor. Essas interpretações são potenciais geradoras de atitudes por parte do paciente. A própria compreensão do diagnóstico facilita a implementação de modalidades de tratamento; obtém-se a colaboração do paciente. Sem recorrer a quaisquer análises teóricas, podemos  afirmar a partir de nossa experiência de vida que o diálogo praticamente inexiste em boa parte dos casos. Diagnóstico e subsequente prescrição médica se fazem à revelia do próprio paciente, ao qual resta a perplexidade e, o mais cruel, a passividade. Analisemos uma situação:
                    Médico 1: "Não temos mais o que fazer, agora é só esperar"
                    Médico 2: "O caso é extremamente grave, mas vamos continuar lutando"  
               Na fala do médico 1 percebemos o enorme distanciamente entre ele e o paciente. Poderíamos pensar que essa fala reflete a tentativa de afastamento do próprio sentimento do médico, na medida em que este enxerga o paciente como uma doença e, portanto, apenas um objeto sobre o qual exerce uma ação. Já a fala do médico 2 não escamoteia a gravidade do diagnóstico; todavia, a partícula "mas" exerce uma dupla função: (i) relativiza o teor da primeira sentença e (ii) propõe uma alternativa. O próprio termo "vamos" coloca o médico na condição de parceiro do paciente. A possibilidade de cura, portanto, não está perdida, visto que o médico apresenta como um processo ainda em curso, dependendo tanto de suas ações como da atitude do próprio enfermo. 





sábado, 5 de janeiro de 2013

O ser humano vivencia a si mesmo como algo separado do universo

Eu sei que você e eu
Nunca fomos iguais.
E eu costumava olhar para as estrelas à noite
E queria saber de qual delas eu vim.
Porque eu pareço ser parte de um outro mundo
E eu nunca saberei do que ele é feito.
A não ser que você me construa uma ponte, construa-me uma ponte,
Construa-me uma ponte de amor.
(Mc Kean - poema de um autista retirado da monografia de Maria Lúcia Salazar Machado) 

                    Hoje li um texto interessantíssimo que trata do autismo - um distúrbio do desenvolvimento humano que, apesar dos muitos anos de estudo, ainda conserva divergências até mesmo científicas -, o texto de Gustavo Serrate (jornalista e cineasta independente) conta um pouco da história de Carly Fleischmann. Divulgo esse texto na tentativa de que ele chegue ao máximo possível de pessoas, pois, me entristece perceber que seja pela diversidade de características ou pela falta de informação deste transtorno, muitas crianças, jovens autistas e suas famílias sofrem preconceito nos mais diversos grupos da sociedade. Que esse texto possa elucidar diversas questões. 

"O autismo me prendeu dentro de um corpo que eu não posso controlar" - conheça a história de Carly Fleischmann, uma adolescente que aprendeu a controlar o autismo para se comunicar através de palavras escritas em um computador após 11 anos de enclausuramento dentro de si mesma, e assista também o video interativo "Carly's Café", no qual você poderá vivenciar alguns minutos da experiência de um autista por trás dos olhos de um. 

Lê se na tela de um computador: "Meu nome é Carly Fleischmann e desde que me lembro, sou diagnosticada com autismo",a digitação é lenta, a idéia não é concluída sem algumas interrupções, é assim que Carly trava contato com o mundo.Carly é uma adolescente de Toronto, Canadá, e atravessou uma batalha na vida. Ajudada pelos pais, ela conseguiu superar a barreira máxima do isolamento humano.

“Quando dizem que sua filha tem um atraso mental e que, no máximo atingirá o desenvolvimento de uma criança de seis anos, é como se você levasse um chute no estômago", diz o pai de Carly. Ela tem uma irmã gêmea que se desenvolvia naturalmente, e aos dois anos, ficou claro que havia algo de errado. Ela estava imersa no oceano de dados sensoriais bombardeando seu cérebro constantemente. Apesar dos esforços dos pais, pagando profissionais, realizando tratamentos, ela continuava  impossibilitada de se comunicar e de ter uma vida normal. O pai de Carly explica que ela não era capaz de andar, de sentar, e todos doutores recomendavam: "Você é o pai. Você deve fazer o que julgar necessário para esta criança".

Eram cerca de 3 ou 4 terapeutas trabalhando 46 horas por semana. Os terapeutas acreditavam que Carly fosse mentalmente retardada, portanto, sem esperanças de algum dia sair daquele estado. Amigos recomendavam que os pais parassem o tratamento, pois os custos eram muito altos. O pai de Carly, no entanto, acreditava que sua criança estava ali, perdida atrás daqueles olhos: "Eu não poderia desistir da minha filha".

Subitamente aos 11 anos algo marcante aconteceu. Ela caminhou até o computador, colocou as mãos sobre o teclado e digitou lentamente as letras: H U R T - e um pouco depois digitou - H E L P. Hurt, do inglês "Dor", e Help significa "Socorro". Carly nunca havia escrito nada na vida, nem muito menos foi ensinada, no entanto, foi capaz de silenciosamente assimilar conhecimento ao longo dos anos para se comunicar, usando a palavra pela primeira vez, em um momento de necessidade extrema. Em seguida, Carly correu do computador e vomitou no chão. Apesar do susto, ela estava bem. "Inicialmente nós não acreditamos. Conhecendo Carly por 10 anos, é claro que eu estaria cético", disse o pai.

Os terapeutas estavam ansiosos para ver provas e os pais incentivavam Carly ao máximo para que ela se comunicasse  novamente. O comportamento histérico de Carly permanecia exatamente como antes e ela se recusava a digitar. Para força-la a digitar, impuseram a necessidade. Se ela quisesse algo, teria que digitar o pedido. Se ela quisesse ir a algum lugar, pegar algo, ou que dissessem algo, ela teria que digitar. Vários meses se passaram e ela percebeu que ao se comunicar, ela tinha poder sobre o ambiente. E as primeiras coisas que Carly disse aos terapeutas foi "Eu tenho autismo, mas isso não é quem eu sou. Gaste um tempo para me conhecer antes de me julgar".

A partir dai, como dizem os pais, Carly "encontrou sua voz" e abriu as portas de sua mente para o mundo. Ela começou  a revelar alguns mistérios por trás do seu comportamento de balançar os braços violentamente, e de bater a cabeça nas coisas, ou de querer arrancar as roupas: "Se eu não fizer isso, parece que meu corpo vai explodir. Se eu pudesse parar eu pararia, mas não tem como desligar. Eu sei o que é certo e errado, mas é como se eu estivesse travando uma luta contra o meu cérebro". "Eu gostaria de ir a escola, como as outras crianças. Mas sem que me achassem estranha quando eu começasse a bater na mesa, ou gritar. Eu gostaria de algo que apagasse o fogo". Carly explica ainda que a sensação em seus braços é como se estivessem formigando, ou pegando fogo. Respondendo a uma das perguntas que fizeram a ela, sobre porquê às vezes ela tapa os ouvidos e tapa os olhos, ela explica que isso serve para ela bloquear a entrada de informações em seu cérebro. É como se ela não tivesse controle e tivesse que bloquear o exterior para não ficar sobrecarregada. Ela explica ainda que é muito difícil olhar para o rosto de uma pessoa. É como se tirasse milhares de fotos simultaneamente com os olhos, e é muita informação para processar. O cérebro de Carly não possui a capacidade de catalizar a quantidade imensa de informações para os sentidos, e consequentemente, ela não pode lidar com a quantidade excessiva de informação absorvida.

Segundo o pai de Carly, ela faz questão de dizer, que é uma criança normal, presa em um corpo que a impede de interagir normalmente com  o mundo. O Pai de Carly teve a chance de finalmente conhecer a filha. A partir do momento em que ela começou a escrever, se abriu para o mundo. Carly hoje está no twitter e no facebook. Ela conversa com as pessoas e responde dúvidas sobre o autismo. Com ajuda do pai ela escreveu um livro chamado Carly's Voice (A voz de Carly). Entre os mais variados comentários que ela recebe sobre o livro, um crítico disse: "A história de Carly é um triunfo. O autismo falou e um novo dia nasceu".


Segue aqui o link do curta-metragem "Carly's Café", baseado em um trecho do livro de Carly.
http://carlyscafe.com/

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

É tempo de viver sem medo


"Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todas, todos temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais." (Eduardo Galeano)




terça-feira, 1 de janeiro de 2013

E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento


             No final/início de ano eu fico mais reflexiva. Acho que isso tem a ver com esses clichês de "balanços", "retrospectivas", "promessas"... E no fundo a gente - querendo ou não - pensa em como foi o ano que passou. Nesta virada em especial tive uma nova experiência - vivenciei a passagem de ano com a distância de um oceano inteiro da maior parte das pessoas que amo - e, felizmente, sobrevivi! Prefiro não fazer um "balanço" de 2012 porque a gente sempre tem que fazer um recorte e dissertar sobre ele - e fazer isso é injusto por diversos motivos. Só queria registrar que eu aprendi uma coisa - e talvez tenha me dado conta disso somente agora, mas ela foi se manifestando num acúmulo de vivências -, aprendi a sentir mais! Estou aprendendo a transformar sentimentos em palavras. E eu desejo muito que isso continue! Desejo que os votos todos de felicidade continuem por todos os dias do ano. Que as reflexões continuem sempre, sempre... E mais do que isso surjam as ações!!!  Que a gente consiga olhar pro lado, ver, ouvir, sentir e dizer! Desejo que as pessoas percebam que o mundo só vai mudar quando elas mudarem, quando elas compreenderem que somos a diferença. Afinal:    

"Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento."

 in Poesia 1918-1930 - Fernando Pessoa



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Autobiografia Sumária de Adília Lopes

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
(LOPES, 2002 em Antologia. P.71)



            Antes de iniciar a minha tentativa de “análise” do poema “Autobiografia Sumária de Adília Lopes” – da poetisa contemporânea que é o pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira – gostaria de dizer que quando estudei essa poetisa logo me apaixonei pela sua poesia. Depois que li alguns textos e fui adentrando o seu mundo literário, então... nem se fala!

            Dotada de um estilo muito peculiar, Adília utiliza diversos elementos narrativos em seus poemas, ora predominando nas repetições, ora infantilizando-os – como é o caso do uso do verbo “brincar” neste poema. Também é constante o uso de figuras animalescas, como neste caso – gatos e baratas. 

            Logo no primeiro verso Adília diz: “Os meus gatos”. Ou seja, não é qualquer gato, é o gato dela. Sabendo que o gato é um animal com certa simbologia, que ora oscila entre tendências maléficas e benéficas, em diferentes culturas, há certo mistério que se insere na figura do gato, e que pode ser facilmente relacionado à figura de Adília, que ao mesmo tempo é Maria José. Portanto, não à toa que tal figura está em sua “Autobiografia”.

            A barata, por sua vez, é a segunda figura animalesca que aparece no último verso do poema de Adília: “com as minhas baratas”. Esta representará aquilo que está à margem, a hipocrisia social ou a solidão. Como sabemos, para a produção de um artista a solidão é indispensável para sua reflexão e criação artística.

            É possível identificarmos que Adília une dois extremos, a barata – que naturalmente não é vista com bons olhos pelas pessoas, por ser relacionada à sujeira –, e o gato – facilmente cultivado como animal de estimação por grande parte das pessoas. Por esta simples metáfora, a poetisa nos transmite a idéia de que o ocultismo do gato e a solidão da barata acabam se completando, assim como as pessoas são constituídas por pólos diferentes, como Maria José e Adília, que são uma só. 

            Neste sentido começamos a perceber que há uma luta contra um discurso do senso comum, onde as pessoas podem viver sem seguir um padrão que limita as vontades próprias. O apreço por animais tidos pelo senso comum como repugnantes e indignos de admiração – como é o caso da barata – faz parte do esforço em fugir das convenções sociais e psicológicas vigentes.

            Enfim, percebe-se que Adília Lopes, mesmo com sua escrita aparentemente simples, é capaz de fazer uma profunda análise da vida cotidiana do ser humano, da qual fazem parte diversos elementos – inclusive baratas. Através dos seus escritos, Adília faz suas denúncias, desenvolve suas descrições alternativas e se distancia da crueldade legitimada de tantas formas. Fugindo dos padrões, utilizando uma sintaxe quase que incompatível com a escrita poética, utiliza os animais como muito mais do que simples substantivos.         

         "Por um lado, os bichos – e eu gosto muito de bichos – serão queridas baratas. Mas não há rostos baratos. Não há caras caras e caras baratas. Vivemos num momento em que as pessoas fazem muitas operações plásticas ou gastam muito dinheiro com a aparência e eu acho isso um logro.” 

            Diante desta nossa última citação fica claro que Adília Lopes se utiliza da arte como forma de elaborar severas críticas à sociedade que lhe é contemporânea. Desse seu esforço crítico, nos é legada uma rica fonte de reflexões – inclusive sobre a linguagem.



A poesia  deve ser apresentada como
uma   forma   de   refletir   e   repensar 
o seu vocabulário final


 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Uma Prova de Amor


         
"Mãe lembra quando eu fui para um acampamento de férias?
Eu estava morrendo de medo de não ver mais vocês,
e você me disse pra sentar do lado esquerdo para
que eu pudesse ver vocês?
Então, estarei neste mesmo assento."

         Ultimamente tenho assistindo um filme mais emocionante do que o outro. Poderia pensar que é por estar vivendo longe do meu país, da minha família e dos meus amigos, mas não! Por mais sentimental que eu seja/esteja o filme que assisti ontem foi um dos mais belos que assisti nos últimos anos. 
             “Uma Prova de Amor” retrata o drama de Kate – uma jovem menina que tem leucemia. Sara e Brian – seus pais – fazem de tudo para que o quadro da doença seja revertido. Quando se veem sem possibilidades são aconselhados por um médico a fazer uma fertilização in vitro para que a criança gerada seja doadora de Kate. Os pais concordam e nasce Anna que desde bebê passa a doar sangue, células tronco do cordão umbilical, e faz tudo o que é preciso para prolongar a vida de Kate.  Aos 11 anos de idade Anna precisa doar um rim para sua irmã, cansada dos procedimentos médicos a garota decide enfrentar os pais dizendo que ela deve decidir o que fazer com o seu corpo, e então, contrata um advogado para defendê-la. Sara não se conforma com a ação judicial, e como estava acostumada a ganhar todos os casos quando exercia a advocacia, decide a todo custo manter Kate viva. Há ainda o irmão Jesse, que se vê cada vez mais ignorado pelos pais e apoia sua irmã – Anna.
                O filme é narrado por seus vários “protagonistas”, desde a própria Anna até a Kate – que em sua situação de dor e sofrimento – demonstra uma maturidade incrível ao lidar com as mais variadas situações. Kate – que passa por essas circustâncias quase toda a vida – consegue enxergá-la de uma maneira muito profunda – se diverte quando é possível, chora e fica triste como todo ser humano, namora e ama. Enquanto isso – no tribunal – Anna não só sensibiliza a juíza que havia perdido uma filha fazia poucos meses, como se coloca em frente a mãe e argumenta sobre o seu direito de decidir se irá ou não doar o rim para Kate.  Jesse invade a sessão – e mesmo com Anna implorando para que ele não dissesse nada –  relata que todo o processo foi aberto porque Kate queria morrer desde o início, e que só os dois irmãos a ouviam.
                 O momento de fortissima emoção é quando todos vão até o hospital onde Kate está internada. Ela se despede da família dizendo que os ama e deixa um álbum de fotos com sua mãe a  pessoa que luta o tempo todo pela sua vida , sendo a verdadeira prova de amor de uma mãe que sofre ao ver sua filha doente e impossibilitada de fazer algo. A jovem bastante debilitada vai a óbito naquele mesmo dia. Sara compreende que somente ela não queria ouvir o que Kate dizia. Por que ela não queria ouvir? Eram palavras duras demais? Sim! Nenhuma mãe quer se conformar em perder uma filha, isso é claro! Mas será que ouvir e procurar refletir sobre aquilo que foi dito não é a melhor maneira de encontrar um alívio para prossseguir a vida e lidar com a situação? Seja lutando, seja conformando-se, seja vivendo… Seja observando que a morte nos ensina sobre a transitoriedade de todas as coisas...