sabe do que eu tenho medo?
de não voltar.
sabe como é não voltar?
quinta-feira, 6 de abril de 2017
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Houve o dia em que eu e meu melhor amigo nos separamos. Foi como uma mudança de casa.
Esse seria um tema bem banal, no geral. Talvez menos banal se eu dissesse que meu melhor amigo esteve ao meu lado por quase uma década, mas ainda comum. Acontece que ele morava em mim, mas não era só minha fortaleza.
Meu melhor amigo mudou de casa porque já não estávamos mais sendo melhores amigos assim, juntos, e aí não fazia tanto sentido estarmos assim – na mesma casa. E como sempre nos chamamos "companheiros", precisamos da mudança pra seguir assim, e não precisar falar de "ex", esse termo esquisito. E companheiros seguimos, porque inclusive temos uma missão conjunta chamada Amizade, "aquele amor que nunca morre".
"Ah, é, poxa, vocês se separaram!". Bom, quem conhece eu e/ou ele sabe que não somos muito afeitos a fazer algo apenas por medo de mudar, nem apego ao conhecido. E lidamos esse tempo todo com essa nova constituição de nossas moradas que nos lembra que a “separação” em conjunto (?!) e companheirismo é muito mais importante que qualquer contexto ou conceito. Então, pois é, Amizade agora tem duas casas.
"Nossa, que evoluídos e desconstruídos!". Não, não é bem assim - teve momentos bem menos tranquilos e serenos nisso tudo. Mas a serenidade chega, e a verdade é que nossos motivos, explicações, limitações, incapacidades (mais minhas, sempre) não importam aqui - são nossos e só.
Aqui, o desejo é só o de nesse momento espalhar o amor e companheirismo que sempre estarão conosco (senão a vida faz bem pouco sentido), e também passar a informação que sempre que encontro alguém e surgem aqueles comentários do tipo "e ele, como vai?” eu fico feliz e digo:
Vamos bem. Aliás, obrigada por perguntar.
terça-feira, 28 de março de 2017
Há pessoas que afastam
Há pessoas que cativam;
Há entre essas pessoas o mundo,
que afasta: o tempo que passa.
que cativa: a pessoa amada.
Lembro-me do primeiro beijo.Do meu próprio sorriso e os prenúncios de outros traços.
Eis que não era eu quem estava ali,
E era eu quem estava ali.
Com um amor nunca antes sentido no coração.
Com os lábios cativados pelo beijo doce e ingênuo.
Nos ímpetos da juventude, os sonhos...
Os amores... Os temores... As emoções!
Céus! Encontrei a luz da minha vida.
Que ela nunca se apague
Porque só tu me cativas.
sexta-feira, 10 de março de 2017
O dia
começa com memórias do dia anterior. Correria. Trabalho. Tudo feito pra ontem.
Mas ontem foi um dia atípico. Senti os nervos à flor da pele, senti o coração
palpitando, senti minhas mãos suadas e os olhos marejados.
Ainda era
um compromisso do trabalho (ou era ócio do ofício). Era Humano. Na Santa Casa,
frente a ala onde crianças e jovens moram lá. É isso! Eles moram no hospital.
Alguns há quase 20 anos. Dentre as plaquinhas que mostravam seus nomes, muito
mistério. Mistério que a cada passo ia se desconstruindo. Histórias difíceis de crer.
L, um
menino torcedor do Santos, estava acompanhado de um médico que fazia companhia
voluntariamente. Na cama, uma bola entre seus pés. Qual seria o seu desejo? Sua
mãe passa lá de vez em quando e avisa que vai viajar com seus irmãos. L pede
para ir embora, mas nunca terá oportunidade de conhecer sua casa. “Sua casa é a
Santa Casa”, diz a mãe.
T, uma
menina de 9 anos, fica me olhando fixamente, não fala. Sorri. Na cabeceira de
sua cama muitos bichinhos de pelúcia, detalhes na cor de rosa. Em sua cabeça um
laço de fita bonito de se ver. Sua família diz que não a quer em casa. “Ninguém
vai ter tempo pra ela”.
J e R
são bebês. Desde o nascimento não conhecem a luz do dia do lado de fora da
janela. Os dias correm como a noite, estão abandonados pelas famílias. Uma mãe
perdeu a guarda de seu filho, sofre com distúrbios psicológicos. A outra não
quer esse “compromisso”.
M mora
lá há 9 anos também, como T, mas sua mãe mora lá junto com ela, numa poltrona.
Essa mãe vive lá há 22 anos, pois antes vivia com o seu primeiro filho,
falecido na Santa Casa com a mesma patologia. Mas por quê pensar que a história se
repete quando se tem esperança de tudo ser diferente? A mãe relata que aguarda
uma decisão judicial que permitirá levar sua filha pra casa com os devidos
cuidados que necessita. “Se ela morrer no dia seguinte, poderá ter passado uma
noite em seu quarto de princesa.”. A história não pode se repetir!
Nos
corredores de outro andar tão maltratado pelo tempo está D, uma menininha que
no dia anterior completara 6 aninhos. Seu olhinho direito tem uma enorme mancha
roxa. Ela corre pelos corredores daquele hospital com a mesma liberdade de
estar num bosque cheio de flores. Presenciou seus pais usarem drogas durante
uma noite toda. No amanhecer do dia seu pai a pega no colo e sai correndo. Sua
mãe sai atrás. Ele se joga no trilho do metrô com D. Ela sofre um traumatismo e
ele morre de overdose. A mãe perde a guarda, afinal, colocou a vida de sua
filha em risco de morte. O tempo passa e é possível que após a alta ela seja
direcionada a um abrigo. E quem irá adotar? Uma menina negra. Um menina que aos
6 anos já sofreu tanto na vida. Uma menina que não teve a chance de conhecer o
amor. Uma vida que o tempo vai levando.
Eu
simplesmente não sei quantas imagens passam pela minha cabeça. O que pensar
diante daquelas vidas? É algo muito misterioso. É algo que eu não posso julgar.
Mas também não posso aceitar. É a natureza? Fico anestesiada e o meu olhar se
perde.
Não
queria perder o horário do nosso contato atemporal dentro do tempo poderoso que
iria moldar a história tão delicada do nosso encontro. De repente, nem percebi se existiam ruas. Estava perdida em 460 anos de história daquele lugar.
Minha
avó pairou minha cabeça. Foram 4 meses morando num ambiente semelhante àquele.
Eu identifiquei sua dor e um filme se passou diante dos meus olhos. Uma vida
cheia de frescor e de potência que de repente se empareda na simples e
essencial falta de sentido da vida humana.
O
absurdo da existência veio de novo sussurrar o meu ouvido. Sons e imagens inapagáveis.
Felizmente tenho conseguido lidar com algumas dores. Essas experiências doloridas que me levam a querer
enfrentar o mundo hostil e seguir em frente, do modo mais singelo possível, mas
seguir em frente sem falsas esperanças, mas seguir em frente. Desculpem essa
digressão para falar de mim.
Tais
experiências ajudam-me num exercício de autoconhecimento. Fazendo a ponte do eu
ao mundo. Ao ver tamanho sofrendo ali, surge esse sofrimento que só a escrita
pode aliviar minimamente. Surge a necessidade também daquele abraço que eu só
vou receber no final do dia. O abraço que torna tudo mais leve apesar da
tristeza que se passava naquele espaço. Me emociono ao lembrar dos olhares. Hoje
o dia requer poesia pra me curar depois de sair daquele útero cheio de imagens
fortes. Hoje a vida adquire um outro significado para mim.
quinta-feira, 2 de março de 2017
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Porque a pracinha é grande e tem muito encanto no recanto dos cantinhos que bocejam à espera do visitante. Cheguei na estação - pensando na pracinha. Pensei durante um tempo que as visitas se tornariam habituais, mas eu acabo chegando a conclusão de que eu não sou habitual. O céu parece uma cúpula no emaranhado das árvores. Eu. Você. Árvores. Vida. Nós. Somos, de novo, os mesmos. Permanecemos firmes com a nossa história. E por mais que eu quisesse que você fosse o meu gatinho, você continua leão, o rei da selva em sua constante demonstração de sensibilidade e um pouquinho de medo. A escala das coisas me arrepia. Deixo-me dominar (gosto de me sentir sua. Sua! Assim como gosto de te sentir meu. Meu), pergunto-me, e logo o abraço nos é dado pelas mãozinhas que não se aguentam. Vamos nos analisando.... A pracinha torna-se nosso lugar de novo. Tudo é imensamente rico nessa pracinha. A novidade era nula; contou o espetáculo. O espetáculo. Hoje, como ontem.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
não há plano b.
saiba: aceitamos o risco.
não há possibilidade de não viver ao seu lado.
minha vida vive num interesse pelo que de você me é escondido
pelo seu mistério.
mistério a ser desvendado a cada dia
durante toda minha vida.
só podem me fazer aceitar o risco. nunca por pena.
é o que eu sempre quero desde quando o conheci,
por que há nisso a liberdade do que há muito está preso.
meu medo entre ombros encolhidos
só pode ser também fonte de alegria e liberdade.
saiba: aceito o risco.
aceito o medo.
aceito nosso amor alegre quente.
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