terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Síndrome de Ulisses, de Santiago Gamboa (algumas impressões de leitura)

O mundo fica pequeno quando não se tem casa e todos os países são hostis (...) Pensei, sou um pobre desgraçado e ninguém se importaria se eu cortasse os pulsos. E isso me deu força. Quando alguém é tão pouca coisa para os outros tende a se cuidar.

Então, no meio daquele grupo, fui acometido por uma intensa e opressiva sensação de orfandade, como se em algum ponto tivesse me extraviado do caminho e agora me encontrasse numa órbita distante, algo como o Planeta dos Macacos, só que com poloneses e romenos.

            "A Síndrome de Ulisses", de Santiago Gamboa tem como protagonista um jovem colombiano, Esteban, que vai para Paris com o sonho de se tornar escritor, mas acaba "nos cantos sombrios em que os imigrantes, na maioria ilegais, insistem em cultivar seus sonhos enquanto lutam pela sobrevivência".
            O jovem que trabalha em dois empregos, ao invés de viver na famosa "cidade das luzes", luta pela sobrevivência num ambiente pleno de escuridão. Em certos momentos declara "medo de não poder suportar a vida que escolhera e ter de voltar a Bogotá, derrotado". Em todo caso, Esteban ainda pode ser considerado privilegiado, pois para ele ainda existe a possibilidade de voltar à pátria. A situação inversa também é apresentada no livro, quando um colega do trabalho relata não haver mais nem essa possibilidade.
Sou coreano, mas no sentido mais triste do termo, ou seja, “coreano do norte” (...) Fugi porque queria fazer com a minha vida o que me desse vontade (...) Depois casei com Min Lin (...) e tive uma filha. A menina morreu aos sete anos. Em vez de leite a mãe só podia lhe dar um mingau de fubá, o que ao final de um ano a deixou cega, por causa da avitaminose. O governo do pai de Kim Il Sung nos dava cinco quilos de arroz por mês, mas isso não era suficiente para crescer. Perdemos nossa filha, e minha esposa, Min Lin, se recusou a viver. Entrou em depressão e tentou suicidar-se. Engoliu uma bolsa de vidro moído e ficou no hospital por mais de quatro meses. Depois foi presa, porque na Coréia do Norte o suicídio é proibido (...) Foi então que decidi fugir do país (...) Eu a abandonara. A sobrevivência nos transforma em pessoas duras, sem coração.
            Neste fragmento é possível notar a ideia clara da "Síndrome de Ulisses". Sabemos que tal síndrome é um transtorno mental que acomete a maioria dos imigrantes ilegais, desencadeando na sensação de perda por ter abandonado a sua terra natal. O nome da síndrome vem do herói mítico Ulisses, que perdido durante muitos anos se via impossibilitado de retornar à Ítaca.
As coisas difíceis que deve ter vivido, sua auto-estima lá no chão, a sensação de estar indefeso e o medo, tudo isso deve tê-lo levado ao estresse crônico e à depressão. Tem uma doença muito relacionada com esses sintomas, disse o médico, mas não tinha nome. Ainda não havia sido batizada como síndrome do imigrante ou síndrome de Ulisses.
            Esteban vive num lugar pequeno e após desistir do curso na universidade e iniciar seu trabalho num restaurante chinês, conhece aqueles que depois se ocupam de boa parte da narrativa, são esses os imigrantes ilegais que vivem numa Paris marginal. É interessante notar que Esteban vai para Paris, uma metrópole das letras, e lá encontra incapacidade de vivenciar a experiência criativa como escritor.
(...) mas enfim, disse a mim mesmo, minha vida, por escolha própria, tinha agora mais a ver com todos eles do que com minhas lembranças de Bogotá, e era justamente isso o que tinha diante de mim, nem mais nem menos (...)
            Vivendo nessa Paris cheia de frieza e hostilidade, a relação com os nativos é muito pouca. Existe uma tendência muito grande que faz com que os grupos de "semelhantes" acabem se aproximando. Nas poucas vezes em que se relaciona-se com os franceses o imigrante acaba numa fuga dos problemas por meio do vício. No romance de Gamboa observamos muito profundamente a relação com a sexualidade e com o mundo feminino. Walter Benjamin em "Despertar do Sexo" faz uma descrição que se assemelha muito com a primeira cena a respeito da sexualidade no livro de Gamboa, ele diz: "numa daquelas ruas, em que mais tarde perambulei sem descanso durante a noite (...), quando foi chegado o momento, o despertar do sexo em circunstâncias das mais singulares"
Agora que minha vida sexual havia se enriquecido, nada me atraía mais do que acrescentar outra marca na minha arma, entre outras coisas porque já começava a sentir aquela curiosidade dos imigrantes em relação às mulheres francesas.
            A questão das mulheres é um ponto bastante interessante na narrativa, afinal, essa temática perpassa a história de outros imigrantes, como Nestor, que é colombiano e Jung, coreano. Num dado momento do livro encontramos a seguinte frase:
A poesia e o exílio são velhos companheiros; o exílio traz com ele a tristeza do que se perdeu, o que já é em si um sentimento lírico; o exílio forçado recorre à lírica para ser denunciado; o exílio tira a lírica dos seus lugares habituais, o amor ou a gesta pátria, e lhe dá uma nova temperatura, o aproxima da realidade do mundo (...) o exílio trabalha um material poético relativamente novo, e que, claro, no seu caso, como no de tantos, esta lírica do exílio estava ligada a uma ideia do mundo, a uma visão política da história e das relações entre os seres humanos (...)
            Aqui, parece-nos que existe uma questão que coloca o imigrante num posicionamento a respeito do que ele teria sido e não do que ele é; a questão do exílio, na qual resta lutar pela sobrevivência. A Síndrome de Ulisses retrata a situação dos imigrantes que sentem o exílio e vivem a frustração de não alcançar o que almejavam.
            O fato de Esteban ter pretensão em tornar-se escritor é bastante importante. É necessário criar uma realidade já que não é possível apresentar a realidade tal como ela é. A questão da representação é apresentada nessa "literatura do exílio" e traz aspectos relacionados sobre a "vida do autor" e o que ele descreve sobre esse "sujeito da literatura". Existe uma certa semelhança entre o personagem e Gamboa, ambos estão distante de sua pátria.
            Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade, nos faz pensar as culturas nacionais como uma fonte de significados, focos de identificação e um sistema de representação. No entanto, sabemos que o eu se constitui em correspondência a um outro. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, diz: “ver a si mesmo metamorfoseado diante de si e agir agora como se tivesse entrado em outro corpo, em outra pessoa”. Em nossa leitura fica claro que não é possível criar algo homogêneo, uma cultura homogênea. Talvez essa impossibilidade de se transformar num "semelhante" seja a dor mais intensa do exilado, que encontra-se fora de sua pátria e também do seu próprio eu.

            Recomendo fortemente a leitura!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mapa de sonhos, de Uri Shulevitz

              Uri Shulevitz nasceu em Varsóvia, na Polônia. Lembra-se, ainda, das ruas sendo bombardeadas no ano de 1939. Mapa de Sonhos conta um pouco das suas memórias da infância. Os primeiros anos em Turquesão, sem comida  e muito sofrimento.

            A história apresenta a caminhada de um menino que está muito distante da sua terra natal. Um ambiente sombrio e conturbado pela guerra é  o cenário estranho e pobre que ronda esse garoto.

            Ele não tem brinquedos, não tem livros e nem comida. Num certo dia seu pai sai para buscar comida, mas seu dinheiro é tão escasso que não seria capaz de trazer alimentos para sua esposa e seu filho que estão ansiosos e famintos em casa.

            O pai do menino volta pra casa, não há comida. Traz nos braços um enorme mapa que é pendurado na parede no dia seguinte. Deitado no chão, olhando para o mapa, ele inicia sua viagem. Cria seus versos e passeia pelo mundo.

“Eu encontrava nomes desconhecidos naquele mapa.
Lia-os em voz alta, me deliciando com seu som estranho e
Usando-os para compor quadrinhas rimadas:
Fukuoka, Tajaoka, Omsk
Fukuyama, Nagayama Tomsk,
Okasaki Miyasaki Pinsk,
Pensilvânia Transilvânia Minsk!
Eu repetia esses versos como uma fórmula mágica,
E, sem nunca sair do quarto, me transportava para longe.”

sábado, 20 de setembro de 2014

Relato de um dia especial

            Hoje eu acompanhei o trajeto (hospital-casa) de um jovem queridíssimo que realiza tratamento de câncer há alguns anos. Sua condição muito debilitada o deixou, durante muito tempo, introspectivo. No entanto, com o tempo ele tem se soltado e me alegrado muito.
        Éramos apenas dois jovens que conversávamos. Aos poucos nos tornamos amigos e hoje ele me presenteou com um relato emocionante sobre as mudanças que ocorreram em sua vida ao longo desses anos que nos encontramos.
          Ontem foi um dia muito especial para ele: acaba de tirar a sonda gástrica que já utilizava há dois anos! Conta-me sobre todos os planos futuros a partir de agora: se alimentar bem (mas só se eu ficar puxando a sua orelha!rs), cuidar dos seus machucados devido a falta de sol e muito tempo na cadeira de rodas ou na cama, fazer uma cirurgia para correção da postura, fazer isso, isso e isso... Não o interrompi, os planos são maravilhosos e sei que com essa garra será possível fazer isso, isso, isso e muito mais.
            Em seguida, fomos falando sobre cuidado, carinho e atenção. Palavras difíceis de definir, possíveis de sentir muito intensamente. Sentimos. E quando chegávamos em casa suas palavras iam me dizendo o quão importante é conversar e desabafar. Seu jeito doce, paciente e simpático trouxe cores para esse dia nublado e escuro. As suas lembranças da infância se conectaram com as minhas memórias, os seus planos fizeram um link com o meu futuro e o meu projeto de vida de se tornar um ser humano melhor.
            Obrigada. E essa palavra traduz a gratidão de aprender contigo.

sábado, 13 de setembro de 2014

Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore

Leiam esse livro, por favor! <3


Ele nos diz o quão importante é escrever nossa própria história!

Tive uma experiência interessante com esse livro! Numa das atividades com uma criança que encontra-se em tratamento de câncer esse livro permitiu que essa criança elaborasse uma boa resposta ao pai que sempre falava sobre a falta de esperança que tinha em relação ao tratamento do filho. Afinal, já havia perdido um ente muito querido com essa mesma doença.
Bom, já não é de agora que o pessoal fala sobre a importância da leitura. A meu ver, que sou fã de literatura, a leitura é fundamental em todas as fases da vida de um ser humano. O problema é que a leitura é um hábito... E nem todos cultivam (talvez porque não percebem o bem que nos faz!).
...E meu desejo nesse momento é que após assistir o curta você tenha muita vontade de ler o livro de William Joyce, uma viagem ao mundo do Sr. Morris Lessmore, um escritor que enquanto produz uma nova obra é surpreendido por uma ventania que leva as palavras do seu livro. A ventania aumenta e ficamos com um cenário de destruição (o cenário que o pai dessa doce criança vive ou vivia?!). Contudo, ele caminha... Um livro está salvo (a criança está aqui, viva e cheia de esperança).
- Venha, pai! Siga-me!
E o pai começa a segui-lo.
Juntos eles encontram muitos livros, digo, pessoas. O livro está a salvo e cheio de páginas brancas a serem escritas.
- Pai, vamos mudar esse final? O meu final pode ser outro e não esse que você vive imaginando...

E ele passa a ver o livro que deve ser escrito e não mais a história que já foi contada e que não vai se repetir  porque nossas leituras são distintas, nossos olhares e nossas vidas!

domingo, 7 de setembro de 2014

Como ler Kafka?

Grande parte dos autores e críticos do século XX fizeram, em algum momento, referências à emblemática figura de Franz Kafka e à sua obra. Nascido na cidade de Praga a 3 de julho de 1883, Kafka cresceu e teve sua formação intelectual marcada pela presença de três culturas, como reflexo da própria constituição do então Império Austro-húngaro: judia, tcheca e alemã.
O pensamento de Franz Kafka foge a qualquer esforço de interpretação que busque enquadrá-lo em esquemas teóricos rígidos e dogmáticos. Desde a publicação de suas obras, em vida e postumamente, exegetas das mais diversas tendências teóricas buscam filiar os escritos de Kafka aos seus respectivos credos e doutrinas. Parece-nos que para cada uma das interpretações fornecidas – frequentemente discordantes – exista na obra de Kafka a possibilidade de encontrar uma parte de verdade. No entanto, a obra em seu conjunto não permite a adoção de interpretações facciosas a partir de leituras fragmentárias. O objetivo do presente trabalho é justamente mapear algumas das principais correntes interpretativas a partir de uma leitura detalhada do ensaio “Anotações sobre Kafka”, de autoria de Theodor Adorno. Concomitantemente ao mapeamento dessas múltiplas correntes de pensamento sobre Kafka, buscaremos lançar luz sobre algumas concepções desenvolvidas por Adorno em torno da produção kafkiana. Num segundo momento, nosso trabalho focará a leitura de Kafka feita pelo filósofo alemão Walter Benjamin, a partir da “Carta da Gershom Scholem”. Por fim, destacaremos alguns pontos dos vivos debates mantidos entre Adorno e Benjamin – que, aliás, mantinham inúmeras afinidades teórico-filosóficas, particularmente nas leituras que fizeram de Kafka, que se influenciaram reciprocamente –, fartamente recuperados a partir da leitura da correspondência mantida entre ambos os pensadores.
I - O conforto no desconfortável
Uma primeira observação pertinente, baseada numa passagem da primeira parte das “Anotações sobre Kafka”, diz respeito a um certo reducionismo analítico operado por leituras dogmáticas de Kafka. Devem ser descartadas, portanto, interpretações que tenham por objetivo conferir à sua obra um sentido coerente ou uma formulação sistemática. De acordo com Adorno, a operação intelectual por meio da qual os textos kafkianos são convertidos em escritórios de informações sobre a condição eterna ou atual do homem – o que empresta à sua obra um tom filosófico ou de mensagem espiritual a ser apreendida pelas antigas e novas gerações – tem por consequência (ou talvez possamos falar mesmo em intencionalidade implícita) neutralizar precisamente o teor de escândalo pretendido pelo próprio Kafka. Não são, vale lembrar, autênticas interpretações, mas antes projeções feitas a partir da obra. Constituem, assim, meras especulações. Adorno não parece menosprezar a sugestividade e, até mesmo, a riqueza de conteúdo de tais leituras. Contudo, somos levados a perceber que tais juízos dizem mais sobre aqueles de quem partem do que do próprio Kafka. Ter-se-ia, assim, um filósofo do existencialismo. Alternativamente, Adorno propõe ao leitor o caminho analítico que dificulta o enquadramento, e que por isso mesmo exige a interpretação minuciosa. A análise feita por Adorno prima por uma compreensão literal de Kafka. Segundo suas palavras,
Para se prevenir contra o curto-circuito causado pelo sentido prematuro já visado pela obra, a primeira regra é tomar tudo literalmente, sem recobrir a obra com conceitos a partir de cima. A autoridade de Kafka é a dos textos.” (grifos nossos) (p.242)
Pode-se seguramente afirmar que Adorno extrapola – e muito! – os limites de uma leitura convencional, possivelmente apressada e, portanto, fragmentária do legado de Kafka. De acordo com as palavras do próprio Adorno:
As criações de Kafka se protegem do erro artístico mortal que consiste em crer que a filosofia que o autor injeta na obra seja o seu teor metafísico. Se fosse assim, a obra teria nascido morta: ela se esgotaria naquilo que diz e não se desdobraria no tempo. (grifo nosso) p.242
Adorno prima por um esforço de compreensão que admita inclusive a dúvida de que o próprio Kafka tenha compreendido adequadamente sua obra. Ao longo de suas “Anotações”, Adorno deixa claro que Kafka não foi meramente um literato ou mesmo um gênio que tenha se dedicado a construir para si próprio um domínio de formulações fixas, imutáveis. Foi, acima de tudo, um poeta, um criador, ambas significações possíveis encerradas sob o vocábulo alemão Dichter.  
II - Max Brod e o “caminho da santidade”  
Durante sua vida, Franz Kafka publicou apenas algumas histórias curtas. Não foi, portanto, um autor notório em sua época. Um dos últimos desejos manifestos por ele ao seu amigo e testamenteiro Max Brod foi a destruição de todos os seus manuscritos. Brod, contudo, não se preocupou em atender à solicitação de Kafka; ao contrário, supervisionou a publicação de parte significativa das obras que estavam em seu poder. Os elogios recebidos por parte dos críticos determinaram uma divulgação relativamente ampla dos escritos kafkianos durante os anos vinte, inicialmente na Áustria e na Alemanha (vale lembrar que o grosso de sua produção literária foi redigido em língua alemã). Na década de 30, parte da obra de Kafka foi traduzida para outros idiomas, espraiando-se em edições na França, Inglaterra e até mesmo Estados Unidos.
Como anteriormente indicado, os escritos de Kafka são objeto de apreciações radicalmente díspares. Theodor Adorno e Walter Benjamin dedicam muitas linhas à problemática das interpretações de Kafka lançadas por aquele que pode com justiça ser visto como o primeiro dos intérpretes: Max Brod. Ambos os autores adotam uma postura nitidamente crítica em relação ao conceito de “santidade”, amplamente utilizado por Brod na caracterização da vida e obra de Kafka em seu Franz Kafka. Eine Biographie, publicado em Praga no ano de 1937. A título da análise da referida obra, Walter Benjamin redige uma carta relativamente extensa a Gershom Scholem. Nela Benjamin defende que a biografia escrita por Brod tem por característica central uma contradição entre a tese e a postura do autor. Segundo Benjamin, o livro de Brod defende a ideia de que Kafka estava “no caminho da santidade”. Isso é feito por meio de reiteradas demonstrações de uma “intimidade ostentatória” do autor com o seu objeto de estudo. Falta a Brod, no dizer de Benjamin, “qualquer sensibilidade pelo rigor pragmático” que deveria estar presente numa primeira biografia de Kafka. Por outro lado, Benjamin demonstra que Brod faz tábula rasa das potenciais leituras de Kafka pelo viés do surrealismo e desqualifica, inclusive, a futura literatura sobre temas kafkianos. Da leitura da Biographie resulta um excessivo peso conferido aos aspectos do judaísmo e, mais especificamente, do sionismo na obra de Kafka.       
III - Entre a tradição mística e a modernidade
Ainda em sua “Carta a Gershom Sholem”, Benjamin expõe uma apreciação geral da obra de Kafka. De acordo com a sua concepção, há em Kafka dois focos: um definido pela experiência da tradição mística e outro pela experiência do habitante moderno da cidade grande. Sob este segundo foco repousa, como indica o próprio Benjamin, uma vasta gama de situações e significações. Por um lado, se tem em mente o cidadão das modernas cidades, que se vê submetido a um aparelho burocrático impenetrável, marcado pela imprecisão de suas instâncias.
Através da leitura de algumas obras de Kafka é possível constatar as afirmações feitas por Benjamin. Na obra Na colônia penal, Franz Kafka apresenta uma novela na qual um observador estrangeiro assiste aos preparativos de um ritual de tortura e execução. Além do observador e do condenado também encontra-se presente um soldado e o encarregado de ministrar a "justiça", justiça essa que conta com o auxílio de uma máquina concebida para que cada condenado sinta na pele a especificidade da sentença que está submetido.
Segundo Modesto Carone, no comentário às obras O veredicto e Na colônia Penal (1998), a novela Na colônia penal foi redigida quando Kafka estava de férias, em outubro de 1914 (seu período mais produtivo).
para ele as relações com objetos, acontecimentos e pessoas só fossem visíveis nos hieroglifos da dor e do medo. São também desse período anotações sombrias dos Diários, em que aparecem fantasias de castigos com aparelhos de tortura, nos quais o autor se autoexecuta. Vale ainda a pena lembrar que nesse mesmo ano estourou a Primeira Guerra Mundial. (p. 77)
            Outra obra de Kafka, O Processo,  nos parece interessante para a reflexão. O drama que tem como protagonista Josef K, personagem que numa manhã qualquer é preso e fica sujeito a um complexo e incompreensível processo de um crime não revelado. Ao leitor se apresenta uma narrativa imersa numa atmosfera desorientada, esse ambiente cheio de surpresas surreais se coloca em conformidade com os parâmetros da sociedade moderna.
            Kafka vai descrevendo um mundo no qual os meios dominaram os fins e a humanidade se perde. Max Brod em uma conversa com Kafka chega a dizer
Lembro-me de uma conversa com Kafka, cujo ponto de partida era a Europa atual e a decadência da humanidade. “Somos – disse ele – pensamos niilistas, pensamentos de suicídio que afloram na mente de Deus. Isto em princípio me fez pensar na visão do mundo da gnose: Deus como um demiurgo maligno e o mundo como seu pecado original. “Ó não – disse -, nosso mundo é só um mau humor de Deus, um mau dia”. “Fora desta manifestação, deste mundo que conhecemos, haveria então esperança?” Sorriu. “Sem dúvida, muita esperança, infinita esperança, porém não para nós.
            Notamos que Kafka possui, portanto, enorme sensibilidade de captar o absurdo, o grotesco e o trágico no cotidiano do homem moderno. Maurício Tragtenberg em seu artigo “Kafka: romancista do absurdo” fala sobre essa "incomunicabilidade” na obra kafkiana. A ausência de comunicação entre os homens, mas principalmente entre o “homem comum” e a administração.
IV - O elemento visual em Kafka
O outro ponto relativo à experiência do habitante moderno da cidade grande diz respeito, na ótica de Benjamin, a uma concepção física do espaço, pautada por uma visão científica do mundo. A título de exemplo, o autor transcreve um trecho da “Imagem do mundo oferecida pela física”, de Eddington. Este aspecto liga-se claramente a algumas observações de Theodor Adorno em suas “Anotações” acerca da marcante presença do elemento visual em Kafka. A tarefa de narrar o visível em Kafka prioriza a questão do gesto.   
Theodor Adorno remete a fala de um “moderno pré-epocal” e é aí que ele encontra uma explicação para a questão da gestualidade em Kafka. Para Adorno isso o remeteria ao retorno do arcaico em meio à moderna atrofia da linguagem. Por outro lado Walter Benjamin retoma a figura do teatro para tratar da gestualidade.
Uma das funções mais significativas desse teatro é a dissolução do acontecimento no gesto. Podemos ir mais longe e dizer que muitos estudos e contos menores de Kafka só aparecem em sua verdadeira luz quando transformados, por assim dizer, em peças representadas no teatro ao ar livre de Oklahoma. Somente então se perceberá claramente que toda a obra de Kafka representa um código de gestos, cuja significação simbólica não é de modo algum evidente, desde o início, para o próprio autor; eles só recebem essa significação depois de inúmeras tentativas e experiências, em contextos múltiplos. O teatro é o lugar dessas experiências. (grifo nosso) (1985, p. 146)
            Vê-se, por exemplo, que em O Processo encontramos muitos gestos e ações que ocorrem sem explicação ou lógica aparente. Esses elementos gestuais nos remetem à dominação do indivíduo pelas entidades que ele mesmo cria: a alienação resultante da racionalização. Benjamin afirma que “só pelo gesto podia Kafka fixar alguma coisa” (1985, p. 154).

Considerações finais

            Ao longo do nosso trabalho buscamos apresentar alguns pontos centrais da obra Kafkiana tendo como base os textos de Theodor Adorno, Walter Benjamin e do próprio Franz Kafka. Na tentativa de mapear algumas das várias correntes interpretativas da obra de Kafka constatamos que ao leitor seria interessante, seguindo as análises de Adorno, primar pela leitura literal de sua obra. Theodor Adorno ainda faz uma ressalva e nos leva a considerar que nem mesmo o próprio Kafka talvez tivesse compreensão de sua obra.
            Ao contrário do que vemos hoje, Kafka não teve grande repercussão em sua época. Max Brod, que escreveu uma biografia de Kafka é alvo de muitas críticas por declarar que Kafka estava "no caminho da santidade". Theodor Adorno e Walter Benjamin apontam que existem diversos problemas em sua interpretação, apontando contradições.
            Em seguida vimos que a obra de Kafka possui relações estreitas com a tradição mística e a modernidade. A obra O Processo, por exemplo, é uma das que nos apresenta relações com o mundo moderno e outras temáticas presentes na obra kafkiana. Além disso, contata-se a importância da gestualidade, a presença de ambientes surreais, atrocidades, reflexões incomparáveis no maior estilo prosador de ficção que a literatura já conheceu.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor. 1998:“Anotações sobre Kafka” e “Caracterização de Walter Benjamin”. In: Prismas. Tradução de Augustin Wernet e Jorge Mattos Britos de Almeida. São Paulo: Ática.
BENJAMIN, Walter. "Franz Kafka. A Propósito dos 10 Anos da Sua Morte". Magia e Técnica, Arte e Política. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
KAFKA, Franz. O veredicto / Na colônia Penal. Tradução e posfácio de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
_____________. O processo. São Paulo: Martin Claret, 2003.
TRAGTENBERG, Maurício. "O romancista do 'absurdo'" In: Separata da Revista ALFA, n° 1. Departamento de Letras da FFCL de Marília. Maio de 2001.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Eu sempre fui apaixonada por poesia. 

Já fazia alguns anos que não devorava poesia como tem acontecido agora. 

Alberto Caeiro tem me inspirado tanto!!!

Deixo aqui o meu poema favorito dos últimos tempos (:


"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."

(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Literatura para quê?, de Antoine Compagnon


                Uma breve resenha de "Literatura para quê?"...
                Para responder à essa questão, Antoine Compagnon divide sua explanação em duas perguntas: "Por que e como falar de literatura francesa moderna e contemporânea no século XXI?" O autor inicia dizendo como falar de literatura. O que nos parece mais claro é uma bipartição na hora de tratar de literatura. Teríamos, de um lado, "a tradição teórica [que] considera a literatura como una e própria, presença imediata, valor eterno e universal; a tradição histórica [que] encara a obra como outro, na distância de seu tempo e de seu lugar". O autor faz uma observação interessante e nos diz que as cátedras de literatura francesa no Collège de France ora pendiam para um ramo, ora para outro.
                Compagnon segue sua conferência apoiado no aparato teórico como viés metodológico e oferece o contexto da produção literária através da história. Além disso, deixa claro que pretende estudar a literatura francesa do Renascimento ao século XX (de Montaigne a Proust). Após tratar da herança francesa dos estudos literários, o autor começa a explicitar o porquê de se estudar literatura. Inicia essa questão propondo algumas perguntas que são compartilhadas com o público. "Quais valores a literatura pode criar e transmitir ao mundo atual? Que lugar deve ser o seu no espaço público? Ela é útil para a vida? Por que defender sua presença na escola?" Nos parece muito interessante pensar todas essas questões, mas em especial a última. Também é importante dizer que essas são questões pensadas, sobretudo, após as Grandes Guerras.
                Mais adiante ele ainda diz: "Há realmente coisas que só a literatura pode nos oferecer? A literatura é indispensável, ou ela é insubstituível? Na tentativa de responder todas essas questões, Compagnon apresenta algumas explicações. Num primeiro momento trata da função e do valor da literatura como constituição do ser humano. Para isso apoia-se no conceito de mímesis, de Aristóteles. A literatura que instrui e deleita ao mesmo tempo. Em segundo lugar apresenta o "poder da literatura" que surge no "Século das Luzes" e refere-se a ela como um remédio, que dá autonomia e libertação ao leitor. Em todo caso, não deixa de lado o seu caráter deleitante. Sob essa ótica nota-se que existe uma forma política bastante marcada na literatura. O terceiro "poder" estaria relacionado à correção da linguagem que a literatura é capaz de proporcionar, seria a linguagem poética que ultrapassa as fronteiras da linguagem ordinária (os avanços na representação do homem no mundo). Por último, Compagnon nega o poder da literatura além do exercício dela mesma. O autor diz que a literatura seria a área do "fora do poder". "A literatura pode divertir, mas como um jogo perigoso, não um lazer anódino".
                Quando sua conferência vai chegando ao fim, Antoine Compagnon fala que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Em relação a essas formas de representação que rivalizam com a literatura o autor diz que “a literatura não é a única [que introduz a inteligência da imagem], mas é mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, e isso é suficiente para garantir seu valor perene”.
                Nos parece pertinente fazer um paralelo com Antonio Cândido no tocante a função humanizadora da literatura. A esse respeito o que ele diz é que
"o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição de saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (1995, p. 249)
                Em todo caso, embora haja convergência nesse aspecto, os autores divergem quanto ao poder emancipador da literatura. A esse respeito, Antoine Compagnon diz que "seu poder emancipador continua intacto, que nos conduzirá por vezes a querer derrubar os ídolos e a mudar o mundo, mas quase sempre nos tornará simplesmente mais sensíveis e mais sábios, em uma palavra, melhores”.
                Durante toda a aula Compagnon apresenta diversas questões, inclusive, sobre a validade e permanência do discurso literário. Além disso, apresenta comentários de extrema relevância para nós, futuros professores de literatura. A esse respeito não seria mais adequado falar de leitura literária ao invés de literatura? Nesse sentido, Leyla Perrone-Moisés, em Inútil Poesia, diz que a literatura como entendemos hoje não é ensinável, mas é possível que exista a leitura literária, e isso deve fundamentalmente existir através do aprendizado. Afinal, "se os professores negligenciarem a tarefa de mostrar aos alunos os caminhos da literatura, estes serão desertados, e a cultura como um todo ficará ainda mais empobrecida." (2000, p.350-351).
                Sem dúvida nenhuma, Literatura para quê, é um livro indispensável para aqueles que se interessam pelo literário e se preocupam com a literatura do século XXI. Nas páginas finais do livro, Antoine Compagnon continua a nos questionar: "Respondi às perguntas que coloquei há pouco? Literatura para quê? A literatura é insubstituível?". Em seguida, responde: "Ela sofre concorrência em todos os seus usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe convém e seus poderes continuam imensos; (...) O exercício jamais fechado da leitura continua por excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em devenir."