quinta-feira, 19 de junho de 2014

Eu sempre fui apaixonada por poesia. 

Já fazia alguns anos que não devorava poesia como tem acontecido agora. 

Alberto Caeiro tem me inspirado tanto!!!

Deixo aqui o meu poema favorito dos últimos tempos (:


"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."

(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Literatura para quê?, de Antoine Compagnon


                Uma breve resenha de "Literatura para quê?"...
                Para responder à essa questão, Antoine Compagnon divide sua explanação em duas perguntas: "Por que e como falar de literatura francesa moderna e contemporânea no século XXI?" O autor inicia dizendo como falar de literatura. O que nos parece mais claro é uma bipartição na hora de tratar de literatura. Teríamos, de um lado, "a tradição teórica [que] considera a literatura como una e própria, presença imediata, valor eterno e universal; a tradição histórica [que] encara a obra como outro, na distância de seu tempo e de seu lugar". O autor faz uma observação interessante e nos diz que as cátedras de literatura francesa no Collège de France ora pendiam para um ramo, ora para outro.
                Compagnon segue sua conferência apoiado no aparato teórico como viés metodológico e oferece o contexto da produção literária através da história. Além disso, deixa claro que pretende estudar a literatura francesa do Renascimento ao século XX (de Montaigne a Proust). Após tratar da herança francesa dos estudos literários, o autor começa a explicitar o porquê de se estudar literatura. Inicia essa questão propondo algumas perguntas que são compartilhadas com o público. "Quais valores a literatura pode criar e transmitir ao mundo atual? Que lugar deve ser o seu no espaço público? Ela é útil para a vida? Por que defender sua presença na escola?" Nos parece muito interessante pensar todas essas questões, mas em especial a última. Também é importante dizer que essas são questões pensadas, sobretudo, após as Grandes Guerras.
                Mais adiante ele ainda diz: "Há realmente coisas que só a literatura pode nos oferecer? A literatura é indispensável, ou ela é insubstituível? Na tentativa de responder todas essas questões, Compagnon apresenta algumas explicações. Num primeiro momento trata da função e do valor da literatura como constituição do ser humano. Para isso apoia-se no conceito de mímesis, de Aristóteles. A literatura que instrui e deleita ao mesmo tempo. Em segundo lugar apresenta o "poder da literatura" que surge no "Século das Luzes" e refere-se a ela como um remédio, que dá autonomia e libertação ao leitor. Em todo caso, não deixa de lado o seu caráter deleitante. Sob essa ótica nota-se que existe uma forma política bastante marcada na literatura. O terceiro "poder" estaria relacionado à correção da linguagem que a literatura é capaz de proporcionar, seria a linguagem poética que ultrapassa as fronteiras da linguagem ordinária (os avanços na representação do homem no mundo). Por último, Compagnon nega o poder da literatura além do exercício dela mesma. O autor diz que a literatura seria a área do "fora do poder". "A literatura pode divertir, mas como um jogo perigoso, não um lazer anódino".
                Quando sua conferência vai chegando ao fim, Antoine Compagnon fala que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Em relação a essas formas de representação que rivalizam com a literatura o autor diz que “a literatura não é a única [que introduz a inteligência da imagem], mas é mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, e isso é suficiente para garantir seu valor perene”.
                Nos parece pertinente fazer um paralelo com Antonio Cândido no tocante a função humanizadora da literatura. A esse respeito o que ele diz é que
"o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição de saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (1995, p. 249)
                Em todo caso, embora haja convergência nesse aspecto, os autores divergem quanto ao poder emancipador da literatura. A esse respeito, Antoine Compagnon diz que "seu poder emancipador continua intacto, que nos conduzirá por vezes a querer derrubar os ídolos e a mudar o mundo, mas quase sempre nos tornará simplesmente mais sensíveis e mais sábios, em uma palavra, melhores”.
                Durante toda a aula Compagnon apresenta diversas questões, inclusive, sobre a validade e permanência do discurso literário. Além disso, apresenta comentários de extrema relevância para nós, futuros professores de literatura. A esse respeito não seria mais adequado falar de leitura literária ao invés de literatura? Nesse sentido, Leyla Perrone-Moisés, em Inútil Poesia, diz que a literatura como entendemos hoje não é ensinável, mas é possível que exista a leitura literária, e isso deve fundamentalmente existir através do aprendizado. Afinal, "se os professores negligenciarem a tarefa de mostrar aos alunos os caminhos da literatura, estes serão desertados, e a cultura como um todo ficará ainda mais empobrecida." (2000, p.350-351).
                Sem dúvida nenhuma, Literatura para quê, é um livro indispensável para aqueles que se interessam pelo literário e se preocupam com a literatura do século XXI. Nas páginas finais do livro, Antoine Compagnon continua a nos questionar: "Respondi às perguntas que coloquei há pouco? Literatura para quê? A literatura é insubstituível?". Em seguida, responde: "Ela sofre concorrência em todos os seus usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe convém e seus poderes continuam imensos; (...) O exercício jamais fechado da leitura continua por excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em devenir."

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (algumas impressões de leitura)

“as mães tem mais a ver com as guerras do que imaginam”.

            O espaço ficcional de O Filho da Mãe é a Rússia à época da segunda guerra da Tchetchênia. Encontramos no livro duas personagens cujas histórias confluem. De um lado, Ruslan, cujo pai foi morto durante os combates e é salvo pela avó, que se sacrifica para enviá-lo a Petersburgo, onde trabalhará nas obras do tricentenário da cidade. De outro, Andrei, filho de uma russa com um exilado político brasileiro e que, após o retorno do pai ao Brasil, foi obrigado pelo padrasto a servir no Exército (no qual também presta serviços sexuais a mando de oficiais corruptos). Ambas personagens vivem uma situação bastante difícil, um rouba dinheiro do outro, vivem refugiados pela noite em meio a delitos. A história de amor entre eles segue em segundo plano, pois como eixo principal encontramos as mães que tentam proteger seus filhos.
           
           Em O filho da mãe, morte e fuga aparecem como soluções para determinados conflitos. Bernardo Carvalho nos apresenta uma polifonia bastante vasta nesse ambiente complexo, "um sujeito plural, composto por fluxos, uma máquina de desejos". Histórias aparentemente desconectadas mostram-se interligadas pela dor, pela perda e pelo amor materno. Parece-nos que "ao narrar [persiste] na busca de fazer sentidos em meio à dispersão contemporânea" 
           
          O narrador do romance tem uma visão totalizadora, o que permite tecer comentários sobre os personagens, tanto no aspecto físico quanto psicológicos.

“Anna não faz ideia de quem possa ter lhe enviado uma encomenda registrada. É estranho receber um aviso debaixo da porta. Se o tivessem deixado na caixa de correio da portaria, como de hábito, ela nunca o teria pegado. Não recebe cartas. Não abre envelopes. Quem a conhece sabe. É uma espécie de fobia. Há vinte anos, evita receber notícias” (CARVALHO, 2009, p.49).
            O livro se inicia com um diálogo que dá início à história. Iúlia Stepánova descobre que está com uma doença que a levará à morte, portanto toma a decisão de não "morrer sem salvar uma vida”. Iúlia se dirige ao Comitê das Mães dos Soldados de São Petersburgo, uma organização em defesa dos direitos dos soldados envolvidos na guerra. Lá encontra uma antiga conhecida, Marina Bóndareva. Ambas se unem por conta da dor e do sofrimento. Marina tinha um filho que cometeu suicídio com medo de retornar ao exército após um sequestro pelas milícias da Tchethcênia; Iúlia, como já dissemos, tem o desejo de salvar um rapaz da guerra, Vássia, filho do casal com o qual divide o apartamento, preso ao tirar do ar um site de uma agência do governo, depois foi incorporado ao exército e acabou parando no hospital militar, vítima de espancamento.
           Notamos que essas personagens aparecem como uma espécie de "estrangeiro". Segundo Denilson Lopes, "exilado dentro de si mesmo, sem retorno possível. Não há mais lar nem o que lamentar. Não é preciso mais viajar, em todos os sentidos, para se sentir estrangeiro. Ser estrangeiro é uma condição geral, mas não a solidão.3 Essa questão do estrangeiro, do "sentir-se fora do lugar" permeia o livro em vários momentos, em especial num bilhete de um rapaz que foi morto nas montanhas ao sul de Grózni.

“Escrevo como o louco que não pode parar de cantarolar sua ladainha sem sentido, nem que seja para não ouvir o ruído do mundo, falar só, mais alto que o ruído do mundo. Escrevo para o caso de você decidir voltar, para assombrar esta cidade. É a mais artificial de todas as cidades. Em três séculos, tentaram três nomes, em vão. Um nome por século. Construíram trezentas pontes, uma para cada ano, mas nenhuma leva a lugar nenhum. Ninguém nunca vai sair daqui”
           
           São Petersburgo é esse lugar que não deixa "ninguém escapar”. é o lugar que as tramas são desenvolvidas e entrelaçadas pela maternidade. “Não pode haver guerras sem mães [...] Você é capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva [...] Sem querer ver é daí que nascem as guerras”.
       
            Stuart Hall, em “As culturas nacionais como comunidades imaginadas”, aborda, como o próprio título diz, a questão da "nação" como "comunidade imaginada".

"Uma cultura nacional é um discurso - um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre "a nação", sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades."

            A questão da identidade é muito relevante para nós. Notamos que as personagens marcam uma identidade, assim como os soldados também possuem as deles. “Sonhara que representava o que não podia caber no sonho [...] O que podia existir em qualquer lugar, menos no meu próprio sonho. Por isso, tive que acordar rápido, para não desaparecer”. A tensão entre países deixa de ser apenas política, sendo espelhadas nas próprias relações sociais.
"Qualquer tchetcheno a quem se fizer a pergunta dirá que não há homossexuais na Tchetchênia. E talvez por isso Ruslan e Akif não tenham sido vistos durante os meses em que se encontraram nas ruínas do prédio da escola de medicina. Porque eram invisíveis."
            Dessa forma é apresentado Ruslan, rejeitado pela mãe e tendo o pai morto na guerra, consegue sair do campo de refugiados na Inguchétia com o auxílio da avó. Na tentativa de encontrar um lugar "seu" segue para São Petersburgo. Andrei, filho de brasileiro exilado político com uma russa, é obrigado a servir o exército. O encontro dos dois acontece quando Ruslan rouba Andrei, “o dinheiro da prostituição para o sustento do exército russo.” O narrador anuncia que “os dois só podem existir no limite da inverossimilhança.” Nasce uma história de amor, representa-se uma relação amorosa que foge da normativa social, um romance heterossexual.
“É possível que não se dê conta de que terminou por associar o sexo às ruínas ao risco, à força de tê-lo descoberto em meio a uma guerra, e de buscá-las, as ruínas, sempre que encontra alguém, por ter sido obrigado a reconhecer nelas o cenário reconfortante do lar onde já não há possibilidade de reconforto. Quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra [...] A ideia de uma vulnerabilidade maior que a sua lhe desperta o amor.”
            Nesse ambiente híbrido e polifônico, o romance equaciona história e ficção na busca de uma escrita capaz de retratar a pluralidade das relações sociais, políticas e econômicas. Dentre as características do romance contemporâneo, notamos que Bernardo Carvalho elenca espaço, identidade, memória como eixos de sua narrativa. A história de Ruslan e Andrei representam identidades do período contemporâneo. Ambos recorrem a rememoração e lutam pela sobrevivência. Recomendo fortemente a leitura!



CARVALHO, Bernardo. O filho da mãe. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Hall, Stuart. “As culturas nacionais como comunidades imaginadas”. In: A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
Lopes, Denilson. “A viagem e uma viagem”. In: O homem que amava rapazes. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Se eu não me chamasse Raimundo, de Ricardo Filho

            Ricardo Filho, neto de Graciliano, é autor de livros infantojuvenis.  A ideia de escrever o livro "Se eu não me chamasse Raimundo" surgiu após o pedido do Instituto do Câncer Infantil do Agreste, em Caruaru, para batizar o bloco de quimioterapia do hospital com o nome de "A Terra dos Meninos Pelados". As crianças que estavam em tratamento na instituição tinham acabado de ler o primeiro livro infantil de Graciliano, a novela que retrata a história de Raimundo, um menino careca que tem um olho preto e outro azul e que se refugia na imaginação para construir um mundo onde todos são como ele.
          "O Raimundo protagonista do livro de Ricardo Filho tem doze anos e não gosta do seu nome. Além disso, ele enfrenta o grande desafio de vencer o câncer. Nessa batalha, ele tem aliados importantes: Pedrão e Alice, os pais que procuram disfarçar a preocupação, e a enfermeira Joana, sempre risonha e carinhosa. O garoto conta ainda com um recurso valioso: sua imaginação. É ela que o faz viajar na história A terra dos meninos pelados, livro que a enfermeira Joana lê para as crianças durante o tratamento da doença. Para Raimundo, a aventura tem um significado especial, já que ele e o protagonista de cabeça pelada e olhos bicolores têm o mesmo nome."
          O livro tem uma linguagem muito poética, trata do assunto com imensa delicadeza. Na luta contra o câncer Raimundo se identifica com o herói de "A Terra dos Meninos Pelados". Em tratamento com quimioterapia, o garoto convive com a esperança da cura e a dor de perder uma amiga. O contato com a morte, com a dor da perda, e a alegria de ficar bom são alguns dos temas que o livro aborda de forma incrível!


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Íris – Uma despedida, de Gudrun Mebs


"Ah!, o eterno é o sempre.
Não tem nós de nascimentos
ou embaraços de mortes.
E o pensamento, este
é terreno demais para
decifrar intenso mistério"

(Bartolomeu Campos de Queirós, em Escrituras)

          Íris - uma despedida é, sem dúvida, um livro muito comovente e capaz de provocar muitas reflexões em seus leitores. A narradora da história é a irmã mais nova de Íris que tenta elaborar os acontecimentos numa narrativa ingênua e cheia de sentimentos. A pequena garotinha descreve o adoecimento de sua irmã que abala toda a família.

          Como uma criança pode entender a doença de uma irmã querida de forma tão repentina? Principalmente uma doença como o câncer? São esses os temas difíceis abordados na narrativa: o sentido da existência, a doença terminal e a importância dos vínculos nas relações humanas. 

          Não é por acaso que Eine Geschichte vom Sterben, título original, tornou-se um marco na literatura infantil alemã. Repleto de sensibilidade e profundidade faço um convite à leitura. Também é importante dizer que além da narrativa delicada de todo o percurso de Íris, as ilustrações de Beatriz Martín Vidal são de imensa representatividade nesse fascinante livro de tema complexo.


 (Ilustradora: Beatriz Martín Vidal / Tradutor: Daniel Bonomo) 



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A linguagem do desenho: uma história de poucas palavras repleta de significados


          Nick Wadley estudou pintura e História da Arte, foi chefe do departamento de História da Arte na Chelsea School of Art, em Londres. Como historiador de arte, escreveu sobre  pintura e desenho do século XIX. Contribui com artigos para catálogos, revistas literárias e publicou uma série de livros, dentre eles Man + Doctor. Esse é um livro de desenhos produzidos entre 2004 e 2010, grande parte deles foi produzido na cama de um hospital em Londres. Muitos dos desenhos nos trazem a sensação de que o artista busca "evitar" o tratamento médico, aceitar a manipulação do próprio corpo e compreender a relação estabelecida no ambiente hospitalar. É através da atribuição de sentidos que podemos notar como o artista pôde se manter numa espécie de equilíbrio, longe da solidão, encarando os medos e as incertezas. 
            Grande parte dos desenhos demonstram impaciência e muito insegurança. O primeiro desenho não possui descrição, ele fala por si só.

           O paciente encontra-se numa sala de espera e, pela porta, os médicos observam o senhor de olhos atentos e mãos cruzadas, o corpo que quer se fechar. Ao lado, uma mesinha e mais nada, a solidão que o acompanha. O segundo desenho, "consultation", reproduz o consultório do médico. Nota-se uma relação assimétrica, de um lado o doutor de postura ereta, braços cruzados demonstrando firmeza, na parede muitos diplomas - como que se reafirmasse o papel de "detentor de saber". Por outro lado, o paciente continua com as mãos cruzadas, curvado, sentado, com olhos de dúvida e preocupação, olhando para cima, para a face do médico.

           Na terceira produção a gradação continua, o paciente começa a se despir, "man in underwear", como se estivesse olhando para o médico, ele olha para trás e fica apenas com uma peça de roupa - que desaparece no próximo desenho. O ambiente se abre novamente, o paciente não é o foco do desenho. A sala vazia aparece, temos o médico, uma enfermeira e o paciente nu à sua frente - na maca -, um ambiente tipicamente hospitalar - sem muitos objetos e cores. Os braços do paciente ficam voltados para baixo numa posição que o deixa vulnerável ao toque do outro. 
           
           Essa questão da vulnerabilidade aparece em muitos outros desenhos. Em "examination", por exemplo, o médico toca o paciente, a enfermeira de braços cruzados sorri. É interessante notar que a boca do paciente aparece aberta, os olhos bastante abertos e atentos. Nota-se que o paciente precisa ter uma confiança enorme no médico, algo muito difícil quando este, na maioria das vezes, é um desconhecido.
             Bom, resolvi escrever esse post porque muitas questões relacionadas a linguagem e saúde rondam os meus pensamentos há algum tempo. Talvez um dia escreva um ensaio na tentativa de fazer uma leitura bastante minuciosa dos desenhos de Nick Wadley. Compreendo a produção artística como uma forma de expressão do eu. Acredito que o ato de desenhar permite que o indivíduo (re)construa e (re)invente seus sentimentos e conhecimentos, de maneira que seus traços possam revelar suas angústias, seus medos e também suas alegrias. Meu desejo é compreender esse movimento de pensar e sentir na feitura dos desenhos e em tantas outras formas de expressão. Outro desejo é que as relações entre médico e paciente melhorem, que as consultas durem mais do que 10 minutos e que possamos nos sentir respeitados de verdade.


sábado, 26 de outubro de 2013

A menina no aquário


Pensando arte, pensando cores, pensando mundo...

Teoria das Cores - Herberto Helder

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.


In Os Passos em volta, ed. Assírio e Alvim (8ª Edição), Lisboa, 2001.
(texto publicado inicialmente em 1962, com alterações em edições posteriores)